Contos e Crônicas
Todo dia aquela história
Sobre os textos que não escrevi
Perdi a conta de quantos textos eu não escrevi, de quantos textos queria ter escrito enquanto olhava fixamente para uma folha de papel, segurando tensamente uma caneta, sentado todo torto numa cadeira, sem saber por onde começar -- com medo de começar e nunca terminar um texto. Perdi a conta de quantas frases de abertura eu já pensei para cada um desses textos que não escrevi.
Parei de contar as histórias que queria ser capaz de contar. Parei de falar das histórias que compunha na minha cabeça na mesma época em que parei de me chamar de escritor -- porque sempre que digo que escrevo, me perguntam o que e só o que tenho para responder são ideias não começadas ou textos não acabados. Mesmo assim, teve um dia em que decidi que escreveria um romance. Então fui lavar louça. Pensei em contar a história de uma mulher frustrada com a falta de sentido de seus esforços, com a sensação de que mesmo todo o seu empenho só resultava em mais um dia como o anterior. Queria escrever sobre seu ócio, sobre a sua sensação de estar sempre ociosa em meio a tantas tarefas. Seu nome seria Anna, com nn porque numerologicamente isso teria algum sentido.
Chamaria esse romance de O Ócio de Anna. Acho que terminei de lavar louça. Tinha roupa no varal esperando para tomar o lugar da pilha de roupas não dobrada no armário. Fui apanhá-las e tropecei em brinquedos de cachorro misturados em destroços de um sabugo de milho -- também das cachorras que amo, exceto quando não. Apanhei os brinquedos e levei até a estante onde acho que é o lugar deles. Na volta pegaria a vassoura para varrer o cadaver dilacerado do sabugo. Agachei pra guardar os brinquedos. Levantei e vi um livro empoeirado. Assoprei o pó e li Assim falou Zaratustra. Já quase li esse livro inteiro umas sete vezes. Dessa vez resolvi abrir numa página aleatória. Li umas duas páginas e deu vontade de escrever. Corri pro quarto pra escrever uma reflexão sobre aquelas páginas antes que ela se perdesse. Sentei e escrevi sobre como fazia tempo que não sentava para escrever.
No meio do parágrafo acima, me dei conta de que mudei o tempo verbal do texto. Saí de um passado não tão distante pra parar num quase presente. Daqui a pouco estarei no futuro, porque daqui a pouco terei que cozinhar de novo, eu acho -- também acho que a geladeira está vazia. Mas só de pensar em sair de casa me dá calafrios. Tenho uma capsula de rivotril debaixo da língua que espero que ajude. Espero que me ajude a não surtar daqui a 2 segundos quando me lembrar que sempre quis viver de escrita, que estou escrevendo há 30 minutos mas que não lembro do que se tratava o Ócio de Anna.
Digo, não sou doido. Consigo esboçar a ideia. Mas um dia eu já tive um projeto estruturado para esse romance. Um dia eu já chamei esse projeto de o projeto da minha vida -- assim como já chamei outros tantos projetos que abandonei ou que sequer comecei por medo de abandonar. Perdi a conta de quantos projetos, ideias, cursos, grupos percussivos, grupos de whatsapp e cidades eu já deixei para trás. Alguém um dia me chamou de aventureiro, disse que queria ser desapegado como eu, que queria ter meu espírito livre e se jogar no mundo. Tomei essa fala como elogio. Acho que foi um elogio mesmo. É mais fácil se orgulhar de ser bixo solto. Do contrário, fica só a vergonha de nunca ter pertencido a lugar algum, ou de nunca sentir que pertencia.
Sempre tive medo de ser deixado para trás.
Guardei pra mim essa sensação de inadequação, de não ter o que é preciso para ser parte de algo. Mas não foi o medo de ficar pra trás que me fez deixar tanta coisa para trás. Não viajei porque sou solto, e livre, mas porque sou incapaz de ficar quieto e parado num só lugar. Não sou daqueles que treme a perna ou batuca na mesa, mas meu bigode nunca tá seco porque não consigo parar de passar a língua nele. Não lembro a última vez que fiquei sentado numa mesma postura por mais de 5 minutos. Essa parte é mentira. Lembro. Mas não conta porque foi num retiro de meditação e eu meio que era obrigado a ficar parado numa mesma posição. Tentei. Acho que consegui. Teve um dia que eu sei que consegui. Mudar de ideia, de vontade, de trabalho, de cidade nunca foi escolha, mas a falta dela.
Esqueço de começos de textos como esqueço onde coloquei meu cinto. Outro dia, perdi o saleiro. Estava dentro do freezer. Esqueço o que fui fazer na cozinha como esqueço, toda noite, que quero acordar cedo no dia seguinte. Isso eu quero. Quero dormir cedo e acodrar cedo tanto quanto queria terminar qualquer uma daquelas histórias que nunca comecei. Não sei nem se é esquecimento, na verdade. Salto de ideia como salto letras e palavras quando escrevo à mão. Salto de um pensamento para outro em menos tempo do que sei contar e acabo sempre escrevendo sobre não saber sobre o que escrever, ou sobre quanto tempo tem que não paro para escrever.
Acabo terminando o que os outros estão falando. Termino sentenças de outras pessoas, às vezes em voz alta, às vezes só para mim, porque não aguento esperar o fim das falas. Enquanto termino o que elas começaram, perco o que estão falando. Perco o que está sendo lido. Teve uma vez, no colégio, num dia de revisão de matéria antes da prova que pedi para um professor contar sobre algum período histórico. Não sei dizer qual porque no instante em que ele começou a falar eu até estava olhando para ele, mas se ele olhasse no fundo dos meus olhos veria a mesma cor opaca que permeia os olhos de um peixe morto. Eu viajei e não lembro de nenhuma palavra que ele disse. Não lembro se passei naquela prova. Acho que não.
Juro que eu tinha uma ideia boa para esse texto aqui. Quando o comecei, tinha pensado em umas alegorias bonitas, uns jogos com palavras como contar e conto, sobre se perder no texto e achar ideias sobre outros textos. Pensei em fazer uma analogia com túneis para falar de hiperfoco e tentar ilustrar como é ter TDAH. Estou aqui a mais tempo do que tinha disponível e nunca soube como começar a falar do túnel. Só sei que entrei nele e vim parar num fio de pensamento completamente diferente do destino que queria dar a esse texto.
Agora estou numa página nova, em branco, e é como se tudo que eu já escrevi tivesse ficado para trás. A cada novo dia, a cada nova página, tudo que eu quero se perde como se perdem os bons memes no feed do instagram. Tenho medo de criar uma conta no Tik Tok e nunca mais ser capaz de elaborar uma sentença ou pensamento que dure mais de 30 segundos. Já são 21h. Era para eu ter parado de escrever há trinta minutos atrás, pelo menos, para terminar de lavar a louça, tirar as roupas do varal, varrer o chão, dobrar as roupas que estão no armário -- ou tentar fazer alguma dessas coisas antes de terminar o dia, e, daí, me preparar para dormir. Mas sei que vou lavar a louça e dobrar as roupas e varrer o chão e até sair para fazer mercado no instante em que decidir escrever o novo romance.
Passei anos me sentindo esquisito e incapaz. Anos me frustrando por não saber bem como começar conversas e sem saber a hora de parar de falar. Anos tentando imitar comportamentos, perseguindo ideais alheios e tentando ser normal. Passei todos esses anos sem saber que tenho TDAH. Agora sei.
Mas ainda não sei como terminar esse texto.
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