Poemas e Poesias
Um passo adiante
Para além do cansaço
Um passo adiante
para além do cansaço
mas algo te impede?
o cansaço te para
e parado se encontra
olhando pra baixo
mirando a si mesmo
a mirar uma poça
de água cinzenta
e cansaço asfaltado
A poça te inunda
dos pés a cabeça
e encharca tua meia
— teu sapato é furado
e encharca tua alma
— teu corpo é varado
e teu pé calejado
te lembra de algo?
de algo remoto
um remoto passado
Lembras de um tempo
de um ontem distante
em que hoje era tempo
de sonhar acordado
de sonhar com a chuva
de dançar desvairado
e cantar sobre chuva
sem ritmo ou prumo
ou fazer algo simples
como andar descalçado
Seria lembrança,
ou só devaneio?
seria vontade?
e vontade de que?
vontade de chuva?
tu odeias a chuva!
o'que, não te lembras?
pois há de lembrar-te!
não fosse a chuva:
poça não haveria
E a poça te enche
de algo gelado
e estremece inteiro
te enche de medo?
que medo é esse?
quer dar meia volta
e dar cabo da meia?
dar cabo do medo
e dar cabo da poça
que te enche a cabeça?
Quer dar cabo que eu sei
te livrar do cansaço
mas o sujeito exausto
abaixo de ti
da mais alta classe
te impede de andar
Um sujeito honrado
de peito medalhado
este homem da poça
está desapontado.
Te olha de baixo
como olhasse de cima
te olha no fundo
do fundo da poça
vê teus pés encharcados
tuas pernas bem bambas
e teu corpo curvado
curvado por quê?
o homem te olha
vê teus olhos molhados.
De quem é a culpa
por essa umidade?
tu culpas a poça?
a poça secou
tu culpas a meia?
também já secou
se está tudo seco
que te sobras agora?
uma face bem firme
qual homem de outrora?
A poça se vai
o cansaço se volta
a meia se seca
e os teus olhos?
quê vêem esses teus olhos?
olhando de cima
sem nada pra ver
e acima de tudo
sem nada pra trás
quê vêem esses olhos?
outro passo adiante?
Textos relacionados
Receba ensaios e pensamentos por e-mail.
Textos sem tempo, direto na sua caixa de entrada.
Carregando comentários…